16 - FICHAMENTO: TEORIA DO NÃO-OBJETO


Em Teoria do Não-Objeto, Ferreira Gullar percebe-se que a arte moderna, ao criar tentativas para romper com a representação tradicional, cria uma nova categoria estética: o não-objeto. Diferente do objeto utilitário e da obra de arte convencional, o não-objeto se caracteriza por ser uma síntese sensorial e mental transparente à percepção, oferecendo-se ao sujeito sem a necessidade de mediações conceituais ou usos práticos. Gullar propõe que, a partir das experiências impressionistas, especialmente com Monet, a pintura figurativa começa a dissolver os contornos do mundo visível, anunciando a morte da pintura tradicional. A evolução segue com o cubismo, que fragmenta os objetos e prepara o terreno para Mondrian e Malevitch, artistas que radicalizam a ausência do objeto representado.

Mondrian, ao eliminar não apenas a figura, mas também a profundidade e a cor naturalista, chega à estruturação da tela como campo autônomo, baseado apenas em linhas verticais e horizontais. Contudo, Gullar aponta que, apesar da abstração extrema, persiste ainda uma tensão entre figura e fundo, entre espaço pictórico e espaço real. Quando a arte abandona a representação, essas convenções se tornam inúteis, e o caminho para o não-objeto se abre.

No desenvolvimento da sua argumentação, Gullar distingue o objeto comum – opaco e utilitário – do não-objeto, que é transparente à percepção e cuja significação emana de sua própria forma, não necessitando de referências externas ou usos predefinidos. A experiência estética proporcionada pelo não-objeto não é uma representação do mundo, mas uma apresentação direta, inaugurando uma nova relação entre sujeito e forma. Esse conceito também redefine a posição do espectador: não basta contemplar passivamente; é necessária uma ação sobre o não-objeto para que sua obra se complete. A interação física ou perceptiva se torna parte constitutiva da obra, promovendo uma fusão entre tempo, espaço e experiência.

Ao analisar a trajetória da arte moderna, Gullar demonstra que os esforços dos artistas desde o impressionismo até o suprematismo russo, passando pela abstração geométrica e pelo neoconcretismo brasileiro, convergem para a necessidade de ultrapassar as categorias tradicionais de pintura e escultura. As tentativas de romper com a representação não são apenas formais, mas envolvem uma transformação radical da função da arte no mundo. O não-objeto, ao instaurar uma experiência fenomenológica pura, ultrapassa a estética convencional e propõe uma nova ontologia artística, em que o fazer e o perceber se fundem numa experiência indeterminada. Ferreira Gullar sustenta que no não-objeto – seja visual, seja verbal – já não se trata de fazer arte nos moldes institucionais, mas de reencontrar a experiência primeira do mundo através da forma, da cor, do espaço ou da palavra. Portanto, a Teoria do Não-Objeto percebe-se que é mais que um ensaio sobre estética.

 

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